Bernadette Lyra dá voz à literatura capixaba
- Faça Arte Como Uma Garota

- 15 de set. de 2025
- 5 min de leitura

Por José Roque
Maria Bernadette Cunha de Lyra, ou simplesmente Bernadette Lyra, é uma das maiores escritoras capixabas de todos os tempos. Com obras que exploram tanto a ficção quanto o ensaio, como o romance A Panelinha de Breu e a seleção de crônicas Água Salobra, ela traz um olhar crítico e sensível sobre a cultura e a identidade brasileira.
Nascida em Conceição da Barra, ela é pesquisadora em cinema com pós-doutorado na Sorbonne, em Paris, além de professora emérita da Universidade Federal do Espírito Santo. O Conexão Freire teve a honra de entrevistá-la e a escritora, muito atenciosamente, contou sobre sua trajetória e deu dicas para os jovens escritores capixabas.
Conexão Freire: Para você, qual dos seus livros foi o mais impactante ao ser feito?
Bernadette Lyra – A cada livro que escrevo renovo uma sensação quase mística de criar vidas e histórias com as palavras. Assim, todos me deixam em estado de graça. Todos me parecem fazer sentido para que eu justifique minha existência no mundo. Não posso destacar um apenas.
Conexão Freire: Para você, qual dos seus livros foi o mais impactante ao ser feito?
A cada livro que escrevo renovo uma sensação quase mística de criar vidas e histórias com as palavras. Assim, todos me deixam em estado de graça. Todos me parecem fazer sentido para que eu justifique minha existência no mundo. Não posso destacar um apenas.
Teve algum desafio a mais para escrever por ser mulher?
Por muitos séculos, as mulheres foram mantidas entre quatro paredes, sem acesso à educação e isoladas das decisões e do convívio social. Historicamente, isso incide sobre grande parte da literatura. A escrita literária feita por mulheres sempre teve mais dificuldade para ser reconhecida de que a escrita feita por homens. Algumas escritoras tiveram mesmo de usar pseudônimo masculino para publicar. E os temas que elas podiam abordar, em geral, eram aqueles aceitos pelo modelo patriarcal de cultura, perpetuando estereótipos, como se houvesse uma determinação biológica na escritura. Em décadas mais recentes, sobretudo com os avanços de uma estética feminista (não acho correto falar em “estética feminina”), foi havendo maior liberdade de escolhas de conteúdo temático e de forma expressiva. Quando eu comecei a publicar ficção, nos anos oitenta, as mulheres já ousavam escrever sobre o que bem desejavam. E assim também fiz. E assim ainda faço.

Como foi sua reação na época ao ser indicada ao Prêmio Jabuti?
Fiquei bem feliz com o reconhecimento nacional e com a boa repercussão de meu livro “Memória das ruinas de Creta”. Um prêmio tão importante é sempre bom para incentivar a gente. Mas preciso dizer que eu não escrevo para ganhar prêmios. Escrevo, para dar validade à minha existência, para cumprir o papel que me cabe no mundo, para sentir que estou viva.
O que a inspirou a iniciar sua carreira na literatura e na pesquisa?
Muita coisa aconteceu para que eu começasse a escrever. Antes de tudo, o fascínio pela leitura de textos alheios, que começou com uma estante de portas de vidro na pequenina venda de secos e molhados de meu avô. Desde que aprendi a ler, aos cinco anos de idade, descobri o universo das palavras contido naquelas velhas prateleiras. Eu lia tudo que me caía nas mãos. E sonhava com produzir histórias. Na verdade, até hoje, faço experiências com as formas de tecer as palavras para obter os efeitos de minha ficção. Nunca cessei de experimentar. A cada dia, estou aprendendo, não só sobre literatura e de como exercitar minha escrita, mas também sobre cinema, que é a arte em que meu doutorado e pós-doutorado estão baseados. Literatura e Cinema: é a dupla que sustenta, respectivamente, minha carreira de escritora e de professora.
"Desde que aprendi a ler, aos cinco anos de idade, descobri o universo das palavras contido naquelas velhas prateleiras. Eu lia tudo que me caía nas mãos." Bernadette Lyra
O que a literatura brasileira ainda precisa explorar mais?
Hoje existe um tsunami de gente escrevendo poemas, romances, contos etc. Parece que escrever virou moda em nosso país. O Brasil periga ter mais escritoras e escritores de que leitores e leitoras. Penso que ainda faz falta melhor conhecimento dos trâmites da escrita, suas formas, suas metamorfoses, suas materialidades, seus fundamentos, mesmo que seja para transgredir. No caso da prosa, por exemplo, não basta contar, é preciso saber contar, adaptar as formas aos conteúdos escolhidos, sejam eles quais forem.
Como nasce uma ideia para seus livros?
Eu digo que existe uma “partícula preciosa”, que é como uma alfinetada na mente e desperta um mundo de sensações. Pode ser qualquer coisa: uma folha que cai de uma árvore, um vento súbito que desarruma os cabelos, um mendigo que passa, uma criança que faz birra, um garoto que ri, a notícia da morte de alguém que se estima, a visão de um barco no mar, um beijo que a gente recebe sem pedir, enfim as coisas que estão no mundo e que precisamos aprender, como canta Paulinho da Viola. Depois, é só se sentar diante do teclado e deixar as palavras escorrerem, materializando e dando corpo à imaginação.
Quais autores ou autoras mais influenciaram sua trajetória?
Minha trajetória foi influenciada por um pouco de tudo que vivi e com quem convivi. Continuo a sentir a influência por tudo que vivo agora e muito devo a pessoas de quem eu estive rodeada, desde a infância. Vai daquelas que nada sabiam de literatura, mas que, quando eu era criança, me contavam histórias de fadas, de duendes, de sereias, de bichos e tantas outras lendas encantadas, até poetas, contistas, romancistas que, ao longo dos anos, me atingiram a mente, o coração e fizeram correr um frêmito por minha espinha dorsal, com suas obras. De cada texto lido, eu sempre retiro alguma lição ou alguma ideia ou algum fragmento. Isso me impressiona e me deixa em paz com meu estilo de escrever e meu modo de ser no universo da Mãe Literatura.
"De cada texto lido, eu sempre retiro alguma lição ou alguma ideia ou algum fragmento. Isso me impressiona e me deixa em paz com meu estilo de escrever e meu modo de ser no universo da Mãe Literatura." Bernadette Lyra
O que mais te atraiu no estudo das relações entre cinema e literatura?
Ambos estruturam histórias. Mesmo revestidas de acontecimentos reais, são sempre histórias que dependem da fantasia e da imaginação.
Que mensagem falaria para os novos jovens leitores e escritores?
Às jovens leitoras e aos jovens leitores, recomendo que leiam, leiam, leiam. Às jovens escritoras e jovens escritores, recomendo que escrevam, escrevam, escrevam.
Quais serão seus próximos projetos?
Ainda este ano, o lançamento do livro que reúne meus contos de quatro outros livros totalmente esgotados, publicado pela editora A lápis. No próximo ano, o lançamento de uma novelinha de poucas páginas que está me dando imenso prazer em escrever. Continuar a escrever minhas “croniquettes”, publicadas quinzenalmente, às terças-feiras, no jornal A Gazeta, em que falo de filmes e livros e assuntos da atualidade. Amar o que sinto de bom e de bem nas pessoas. Em suma: viver.
OBRAS DE DESTAQUE

As Contas no Canto (contos), 1981
O Jardim das Delícias (contos), 1983
Corações de Cristal ou A Vida secreta das Enceradeiras (contos), 1984
Aqui começa a dança (novela), 1985
A Panelinha de Breu (romance) Ed. Estação Liberdade, recriação parodística da lenda capixaba surgida a partir da história de Maria Ortiz, 1992
Memória das Ruínas de Creta, 1997
Tormentos Ocasionais, 1998
Tradução de Aden, Arábia, de Paul Nizan
A Nave Extraviada (não-ficção), 1995
O Parque das Felicidades (contos), 2009
A Capitoa (romance). 2014.
Fotogramas do Brasil; As chanchadas ( não-ficção) 2014.
Água Salobra (crônicas) 2017.
O Jogo dos Filme (não-ficção) 2018.
Ulpiana (romance) 2019.
Guananira (crônicas) 2019.



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